Movimentos bilionários de gigantes do setor farmacêutico não apontam para uma maior concentração do mercado

Da Redação
Conforme publicou recentemente o jornal Valor Econômico, nos últimos dias, chamaram a atenção do mercado os diversos movimentos bilionários entre companhias gigantes do setor farmacêutico. As ofensivas da Pfizer sobre a AstraZeneca, a oferta hostil da Valeant pela Allergan, as trocas de ativos entre Novartis, GlaxoSmithKline e Eli Lilly, além da recente compra pela Bayer da área de produtos de consumo da Merck. Apesar do agito, a indústria não aponta para uma maior concentração do mercado, com crescentes fatias sendo abocanhadas por um menor número de empresas: as gigantes envolvidas nestas operações. Na verdade, o movimento é contrário.

Segundo dados da consultoria especializada IMS Health obtidos pelo jornal Valor Econômico, em 2000 as vinte maiores companhias do mundo dominavam 66% do mercado global farmacêutico, enquanto que no ano passado o mesmo número detinha 56% da indústria. E, segundo analistas consultados pelo Valor, esta tendência de queda na concentração do setor deve continuar. “Com estes movimentos de fusões e aquisições, as companhias podem ganhar em rentabilidade, mas não estão elevando sua participação no mercado total”, afirmou Murray Aitken, um dos principais executivos globais do IMS.

A série de anúncios das farmacêuticas reflete um reaquecimento dos negócios entre estas empresas. Mas os últimos anos já vinham sendo marcados por acordos de fusões e aquisições: as companhias vêm adotando estratégias para continuarem competitivas. Essa busca por competitividade se dá, em grande parte, em resposta ao fortalecimento das empresas de menor porte, as menos avessas ao risco e grandes inovadoras. Os laboratórios locais, em geral produtores de genéricos, também avançam – principalmente nos países emergentes -, e abocanham fatias do mercado que estavam dominadas pelas multinacionais. “Este novo cenário tem limitado a concentração do mercado”, explicou o executivo do IMS.

Entre meados da década de 90 e o início dos anos 2000, o setor viu acontecer megafusões, que formaram grande parte das gigantes farmacêuticas que existem hoje. Neste período, foi possível observar uma maior concentração do mercado. Mas, depois disto, o desenho foi mudando com a queda da participação das grandes multinacionais, traçando uma tendência que, segundo analistas, deve continuar. “Estas gigantes foram construídas em uma época em que os ganhos eram mais fáceis e suas estruturas de custos também são desta época”, afirmou Glen Giovannetti, líder global de ciências da vida, da consultoria Ernst&Young (EY). “Agora, as empresas estão sob pressão para adaptarem suas estratégias de negócios e alocarem da melhor maneira o capital”, completou o especialista.

Hoje, os desafios dos laboratórios são maiores. Com a alta competição de muitos produtos de ponta no mercado, é cada vez mais difícil para as companhias lançarem medicamentos campeões de vendas (os “blockbusters”) e terem o retorno esperado sobre suas inovações. Com o aumento dos custos de produção e a crescente necessidade de investimentos em pesquisa, as margens da indústria têm ficado mais apertadas. De 17 empresas analisadas pelo IMS, apenas cinco apresentaram avanço nas vendas e nas margens operacionais entre 2011 e 2013. Seis tiveram queda tanto nas vendas quanto nas margens operacionais. “São muitos medicamentos de sucesso no mercado. Antes, os executivos se perguntavam: \’Esta nova droga vai funcionar?\’ Agora, a pergunta é: \’Esta nova droga realmente importa?\'”, disse Giovannetti.

E as estratégias das companhias vêm tentando direcionar esses desafios. A última onda de negócios, há dois anos, envolveu cisões no setor e arrebatou laboratórios tradicionais como Pfizer, Abbott, Bristol Myers-Squibb (BMS). A Pfizer vendeu em sua divisão de nutrição infantil para a Nestlé, e separou a divisão animal. No mesmo passo, a Bristol Myers-Squibb (BMS) transferiu os direitos de comercialização dos medicamentos isentos de prescrição (OTCs, na sigla em inglês) na América Latina à inglesa Reckitt Benkiser. A Abbott separou sua área de produtos de inovação, na nova AbbVie.

Agora, em um novo momento de movimentação do mercado, as estratégias nem sempre indicam a mesma direção. Na linha da busca por enxugar o portfólio e se focar nas áreas onde tem maior potencial, está a reestruturação da suíça Novartis – que incluiu a venda da divisão de vacinas para a GSK, a compra da de oncologia da GSK, e a venda da divisão de produtos veterinários para a Eli Lilly. O foco da Bayer no segmento de OTC ficou claro na compra de uma divisão da Merck. Mas as tentativas da Pfizer na compra total da AstraZeneca mostram outro tipo de estratégia: a da busca por presença geográfica e por participação em classes terapêuticas específicas. “No fim, a busca é uma só: melhorar os resultados e ser mais eficiente nos custos”, diz Giovannetti.
Fonte: Valor Econômico



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