30 de setembro de 2026

Como o ESG pode sair do discurso e entrar na rotina das empresas 

Fala-se cada vez mais em ESG. O conceito está presente em eventos, reuniões de negócios, relatórios corporativos e discussões sobre o futuro das empresas. Mas existe uma questão que considero fundamental: quanto desse discurso realmente está se transformando em prática?

Minha percepção é que ainda existe uma distância significativa entre conhecer o conceito de ESG e incorporá-lo à rotina empresarial. Muitas vezes, quando pensamos no tema, imaginamos grandes corporações, investimentos elevados e estruturas complexas. Isso acaba criando a impressão de que ESG é algo distante da realidade de empresas menores.

Não acredito nisso. ESG pode, e deve, ser construído de acordo com a realidade de cada organização. O mais importante não é começar grande, mas começar de maneira estruturada, entendendo onde a empresa está, quais são seus impactos e onde pode melhorar.

Um dos primeiros aprendizados que tive nesse processo foi perceber que ESG vai muito além de sustentabilidade ambiental. Os três pilares, ambiental, social e governança, precisam estar conectados à estratégia da empresa.

No aspecto ambiental, entram questões como consumo de água e energia, gestão de resíduos, emissões e uso eficiente de recursos. No social, estão temas como saúde, segurança e bem-estar dos colaboradores, diversidade, inclusão, capacitação, relacionamento com comunidades e responsabilidade na cadeia de fornecedores. Já a governança envolve ética, transparência, compliance, proteção de dados, gestão de riscos e qualidade dos processos decisórios.

O primeiro passo, portanto, é o diagnóstico. Antes de estabelecer metas, é preciso entender o estágio de maturidade da empresa. Isso pode ser feito por meio de entrevistas com lideranças e colaboradores, análise de processos, levantamento de indicadores e avaliação das práticas já existentes.

Esse diagnóstico também revela algo interessante: muitas empresas já possuem iniciativas relacionadas ao ESG, mas não as reconhecem ou não as estruturam dessa forma. Políticas de compliance, ações de inclusão, cuidados com saúde e segurança, proteção de dados ou iniciativas ambientais podem existir isoladamente, sem fazer parte de uma estratégia integrada.

Foi exatamente esse exercício que começamos a realizar na Farmarcas e na Febrafar, onde o ESG está em processo de implementação. Identificamos boas práticas já existentes e, ao mesmo tempo, oportunidades de evolução. Isso mostra que não necessariamente se parte do zero.

Depois do diagnóstico, minha recomendação é escolher prioridades. Não é possível abraçar todos os temas de uma vez. É melhor selecionar aqueles que têm maior relação com o negócio e nos quais seja possível gerar resultados.

Na dimensão ambiental, por exemplo, estamos trabalhando com eficiência no uso de recursos e gestão de resíduos. A revisão do contrato de energia, combinada a medidas como sensores de iluminação e controle do ar-condicionado, contribuiu para reduzir uma conta mensal de aproximadamente 30% em alguns meses.

Na gestão de resíduos, uma análise mostrou que aproximadamente 82% do material encontrado poderia ter outra destinação, mas estava sendo encaminhado como rejeito. O dado revelou que não bastava disponibilizar lixeiras adequadas. Era necessário trabalhar informação, treinamento e comportamento.

E esse aprendizado vale para os demais pilares. ESG não acontece apenas quando trocamos uma lâmpada ou separamos o lixo. Ele também acontece quando uma empresa melhora as condições de trabalho, capacita suas equipes, amplia a diversidade, estabelece relações mais responsáveis com fornecedores, fortalece seus mecanismos de compliance ou aumenta a transparência de suas decisões.

Por isso, considero a educação e o engajamento das pessoas fundamentais. Não adianta criar uma política se ninguém conhece ou aplica. O ESG precisa chegar às lideranças, aos colaboradores, às equipes terceirizadas e aos parceiros que fazem parte da operação.

Também não acredito em estabelecer metas apenas para produzir números. Primeiro precisamos construir uma linha de base. Depois, definir indicadores, acompanhar os resultados e corrigir a rota. O objetivo não deve ser apenas conquistar uma certificação, mas promover uma transformação real na maneira como a empresa funciona.

Os primeiros resultados que estamos observando na Farmarcas e na Febrafar mostram justamente esse potencial. Com ações estruturadas já é possível perceber que pequenas mudanças, quando organizadas e acompanhadas, podem produzir impactos relevantes.

Vejo o ESG como uma jornada de amadurecimento. Para uma grande empresa, ela pode envolver estratégias sofisticadas de descarbonização, diversidade, gestão de riscos e cadeia de fornecedores. Para uma empresa menor, pode começar pelo controle de desperdícios, melhoria das condições de trabalho, organização dos processos, relacionamento com fornecedores ou maior transparência na gestão.

Os caminhos são diferentes, mas o princípio é o mesmo: não precisamos esperar ter uma estrutura perfeita para começar. Precisamos entender nossa realidade, escolher onde podemos melhorar e transformar intenção em ação. No final, ESG não é sobre fazer tudo de uma vez. É sobre fazer o que precisa ser feito, medir os resultados e continuar avançando.

Rafael Tavares é Diretor Administrativo da Febrafar e da Farmarcas, com mais de 15 anos de experiência em finanças corporativas, gestão financeira, planejamento, otimização de processos e relacionamento com instituições financeiras.

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